Imagine duas áreas de pastagem no fim de uma tarde quente. Na primeira, o gado procura uma sombra que não existe. Na segunda, os animais descansam sob árvores enquanto o capim ocupa os espaços iluminados entre elas. A diferença mais visível está no conforto do rebanho. Mas há outras diferenças possíveis, menos evidentes, no solo, na água e na dinâmica da vegetação dos sistemas silvipastoris.
É nesse ponto que os sistemas silvipastoris merecem atenção. Eles integram árvores, forrageiras e animais na mesma área, com manejo planejado para que os componentes funcionem juntos. Seu potencial vai além da produção de madeira e carne. Esses sistemas silvipastoris também podem favorecer serviços ecossistêmicos: benefícios gerados pelos processos naturais que sustentam a atividade agropecuária e a vida ao redor dela.
O interesse é concreto. Quem vive da pecuária precisa de pasto produtivo, solo protegido e animais em boas condições. E quem acompanha os desafios ambientais sabe que não basta produzir hoje: é preciso manter a capacidade de produção nos próximos anos. Uma pecuária alinhada ao meio ambiente é possível, mas depende de escolhas técnicas feitas dentro da propriedade.
O primeiro serviço dos sistemas silvipastoris aparece no solo
O solo costuma entrar na conversa quando falta fertilidade. Mas sua saúde envolve mais do que nutrientes disponíveis. Estrutura, matéria orgânica, atividade biológica, infiltração de água e espaço para o crescimento das raízes também influenciam o vigor da pastagem.
Em um sistema silvipastoril bem conduzido, árvores e capins contribuem com folhas, raízes e outros resíduos vegetais. Esses materiais alimentam a dinâmica da matéria orgânica. A cobertura do solo ajuda a protegê-lo do impacto direto da chuva e da exposição prolongada ao sol. O resultado, porém, depende do manejo: não se deve esperar que a simples presença de árvores recupere um solo compactado ou compense o sobrepastejo.
Um estudo com sistemas silvipastoris de eucalipto e Urochloa decumbens registrou, no solo avaliado, estoques de carbono orgânico de 80,7 toneladas de carbono por hectare em 2011 e 111 toneladas por hectare em 2015. É uma diferença expressiva entre as duas medições. Também é um dado que precisa ser lido com precisão: trata-se do carbono estocado no solo daqueles sistemas, nas condições e profundidades estudadas. Não é uma promessa de que toda pastagem arborizada terá o mesmo resultado (Oliveira et al., 2024).
A comparação com pastagens sem árvores reforça outro ponto: o manejo da forrageira importa. Na bacia do rio Araguari, em Minas Gerais, pesquisadores encontraram, na camada de 0 a 20 centímetros, 43,92 toneladas de carbono por hectare sob pastagem melhorada de braquiária e 34,63 toneladas por hectare sob pastagem degradada. É uma comparação entre tipos de pastagem, não uma medição do efeito de árvores. Ela mostra por que a condição do capim e o manejo do solo devem fazer parte de qualquer conversa séria sobre carbono (Rosendo e Rosa, 2012).
Carbono estocado também não é sinônimo de pecuária “carbono neutro”. Para avaliar o balanço climático de uma propriedade, seria necessário considerar, entre outros fatores, as emissões dos animais e as mudanças de carbono no solo e na vegetação ao longo do tempo. O valor de um estudo está em ajudar a formular perguntas melhores para cada área, não em oferecer um número pronto para todas elas.
Água e cobertura do solo
Quando a chuva chega, o destino da água depende, em parte, do que encontra no caminho. Em um solo exposto e degradado, aumenta o risco de escoamento superficial e erosão. Onde há cobertura vegetal, raízes e uma estrutura de solo favorável, criam-se melhores condições para a infiltração.
As árvores podem contribuir para esse processo, assim como a forrageira bem estabelecida. Por isso, a discussão sobre conservação da água não pode ficar restrita à copa. É preciso olhar para baixo: o capim cobre o solo? Há raízes ativas? O pastejo mantém folhas suficientes para a rebrota? A integração lavoura-pecuária-floresta é apontada pela Embrapa como uma estratégia que pode favorecer a matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes e a infiltração de água, conforme as condições de implantação e manejo.
Esse serviço interessa diretamente ao produtor. A água que infiltra tem mais oportunidade de permanecer no sistema; o solo que não é arrastado pela enxurrada continua disponível para produzir. Conservação, nesse caso, não é um assunto distante da porteira. Ela começa na manutenção de uma pastagem capaz de proteger a superfície do terreno.
Sombra boa é sombra planejada
A sombra é um dos benefícios mais conhecidos da arborização de pastagens. Ela pode oferecer aos animais melhores condições microclimáticas, especialmente durante os períodos de maior calor. Mas sombra não é um recurso que funciona melhor quanto maior for sua quantidade.
O capim precisa de luz para crescer. À medida que as árvores se desenvolvem, a distribuição da luz muda. Uma faixa que produz bem nos primeiros anos pode apresentar outra resposta quando as copas se expandem. Espécie arbórea, espaçamento, orientação das linhas e manejo das copas passam, então, a influenciar também a produção de forragem.
Uma pesquisa da Embrapa Gado de Leite, conduzida em Coronel Pacheco, Minas Gerais, avaliou Urochloa decumbens (syn. Brachiaria decumbens) em diferentes distâncias de renques de árvores. A região entre 7 e 10 metros dos renques apresentou, naquele arranjo, o melhor aproveitamento da sombra moderada para as características estudadas. Sob a copa, o teor de proteína bruta foi maior; já a massa e a taxa de acúmulo de forragem alcançaram valores mais altos a outras distâncias. O estudo ilustra uma decisão prática: qualidade da forragem e quantidade produzida precisam ser examinadas juntas. Aqueles metros são um resultado experimental, não um espaçamento universal para plantio (Paciullo et al., 2011).
O capim certo sustenta a integração
Para uma empresa de capins, há uma mensagem essencial nessa discussão: a forrageira não é o preenchimento entre as árvores. Ela é parte decisiva do projeto. É o capim que fornece alimento ao rebanho, mantém o solo coberto e responde diariamente às condições criadas pelo componente arbóreo.
Por isso, escolher a cultivar apenas pela produção observada a pleno sol pode levar a uma decisão inadequada. Antes da implantação, é preciso considerar o clima, o tipo e a fertilidade do solo, a capacidade de investimento em correção e adubação, o regime de chuvas, a categoria animal e a intensidade de manejo pretendida. Em sistemas arborizados, entra mais uma pergunta: como a forrageira responde à luz disponível hoje e à sombra esperada quando as árvores crescerem?
Ensaios com gramíneas do gênero Urochloa ajudam a mostrar por que não existe uma resposta única. Em um experimento com níveis artificiais de sombreamento, os capins Xaraés e Marandu apresentaram maior produção total que Urochloa decumbens nas condições avaliadas. Ao mesmo tempo, todas as gramíneas reduziram a produção acumulada com o aumento da sombra, e a produção de raízes caiu de forma acentuada nos níveis mais altos. Tolerar sombra, portanto, não significa produzir indefinidamente sob pouca luz (Martuscello et al., 2009).
O Marandu oferece outro exemplo útil. Em pesquisa realizada em Lagoa Santa, Minas Gerais, o sombreamento por árvores nativas elevou o teor de proteína bruta do capim, mas reduziu sua produção de matéria seca em comparação com a área a pleno sol. Se o produtor observasse apenas a proteína, perderia uma parte da história. Se observasse apenas a quantidade de capim, perderia outra. A escolha da forrageira e o ajuste da lotação precisam levar em conta ambas (Souza et al., 2007).
Marandu, Xaraés, Piatã e outras cultivares podem ter lugar em projetos de integração, desde que a recomendação considere as condições locais e o manejo previsto. Também não basta selecionar uma boa semente e deixar que o sistema se organize sozinho. Formação adequada da pastagem, fertilidade, controle da competição inicial e acompanhamento do pastejo continuam necessários conforme as árvores crescem.
Nesse contexto, o OKAPI® é um híbrido de braquiária desenvolvido para áreas com sombreamento entre 25% e 50%. O material apresenta hábito de crescimento estolonífero e decumbente, alta proporção de folhas, proteína bruta de até 17% e digestibilidade de até 68%.
Em uma avaliação conduzida em sistema silvipastoril no Rio de Janeiro, o OKAPI® produziu 8.400 kg de matéria seca por hectare, enquanto o Marandu registrou 3.158 kg de matéria seca por hectare nas mesmas condições. Assim como nos demais resultados apresentados, esses números se referem às condições específicas da avaliação e não devem ser interpretados como uma garantia de desempenho para todas as propriedades.
Os dados mostram, porém, a importância de escolher uma forrageira compatível com a disponibilidade de luz e acompanhar sua resposta conforme as árvores e a distribuição da sombra se modificam.
Biodiversidade exige olhar para a paisagem
Árvores em áreas de pastagem podem oferecer abrigo, alimento ou locais de passagem para diferentes organismos. Ainda assim, o efeito sobre a biodiversidade varia com o tipo de sistema, as espécies presentes e o que existe no entorno. Uma área produtiva arborizada pode contribuir para uma paisagem mais diversa, mas não substitui a conservação da vegetação nativa (Nguyen et al., 2026; Boinot et al., 2022).
Essa distinção fortalece a proposta dos sistemas silvipastoris. Reconhecer seu potencial não exige atribuir a eles benefícios automáticos. Exige planejar onde as árvores serão mantidas ou introduzidas, como o pasto será conduzido e de que maneira a área produtiva se relaciona com os demais ambientes da propriedade.
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Produzir melhor é acompanhar os sistemas silvipastoris
A implantação de um sistema silvipastoril não encerra o trabalho; ela inicia uma sequência de ajustes. Vale observar a produção e a cobertura do capim em diferentes pontos da área, a resposta dos animais, a condição do solo e o avanço da sombra ao longo dos anos. Quando necessário, será preciso rever o manejo das árvores, da fertilidade ou do pastejo.
É assim que os serviços ecossistêmicos deixam de ser uma expressão bonita e passam a orientar decisões. O carbono no solo pode ser medido. A forragem pode ser avaliada em quantidade e qualidade. A cobertura vegetal e os sinais de erosão podem ser acompanhados. Cada indicador ajuda a responder se a integração está cumprindo o que prometeu naquela propriedade.
Pecuária sustentável não nasce da presença isolada de árvores, nem da escolha isolada de um capim. Ela se constrói na relação entre solo, forrageira, componente arbóreo e animais. Quando essa relação é bem planejada e acompanhada, produzir e cuidar do ambiente tornam-se objetivos possíveis dentro da mesma área.
Talvez a pergunta mais importante para o futuro da pecuária seja esta: além de produzir hoje, o que nossas pastagens estão fazendo para continuar produtivas amanhã?
Por Dra. Elaine C. Teixeira, zootecnista

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