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Leite a pasto pode render mais queijo? Entenda o papel da alimentação na composição do leite.

Leite a pasto pode render mais queijo? Mesmo quando duas propriedades produzem o mesmo volume, diferenças na composição do leite podem gerar resultados distintos na fabricação de queijos e outros derivados.

O volume pode ser igual, mas a composição do leite muda. Proteína, caseína, gordura e outros sólidos interferem no aproveitamento da matéria-prima durante a fabricação. Por isso, para quem produz leite destinado a derivados, olhar apenas para litros por vaca pode esconder parte importante do resultado.

E o pasto entra onde nessa história?

A alimentação é um dos fatores capazes de modificar a composição do leite. Isso não significa que simplesmente colocar uma vaca no pasto fará o leite render mais queijo. A questão é entender como uma base forrageira bem manejada pode contribuir para consumo, produção e características tecnológicas do leite.


O que realmente determina quanto queijo o leite pode produzir?

Na fabricação de queijo, nem todo componente do leite tem o mesmo destino.

Entre os componentes mais importantes para o rendimento estão a gordura e, principalmente, a caseína, fração das proteínas diretamente envolvida na formação da coalhada.

As próprias fórmulas utilizadas para estimar rendimento de queijo historicamente consideram gordura e caseína ou proteína do leite. Isso ajuda a explicar por que avaliar somente o volume produzido não conta toda a história.

Outros fatores também interferem. Genética, estágio de lactação, saúde da glândula mamária, qualidade higiênico-sanitária e o próprio processo utilizado pela indústria modificam o resultado final.

A contagem de células somáticas (CCS), por exemplo, não é apenas um indicador sanitário. Estudos relacionam CCS elevada a mudanças na caseína, coagulação e eficiência de recuperação dos componentes do leite durante a fabricação de queijo.

Portanto, a lógica é simples:

mais litros não significam, automaticamente, mais queijo na mesma proporção.

Leite a pasto pode render mais queijo? O que dizem os estudos

Para entender se o leite a pasto pode render mais queijo, é necessário observar como o sistema alimentar influencia a proteína, a caseína e os demais componentes do leite.


Um estudo publicado no Journal of Dairy Science colocou essa pergunta à prova de maneira interessante.

Sessenta vacas foram divididas em três sistemas alimentares: pastagem de azevém perene, pastagem de azevém com trevo-branco e confinamento com dieta completa misturada, a conhecida TMR.

O leite foi então utilizado na fabricação experimental de mozzarella.

No conjunto do período avaliado, o leite dos dois sistemas a pasto apresentou maiores concentrações de proteína e caseína e maior capacidade de rendimento do queijo em comparação ao leite das vacas alimentadas com TMR.

Esse resultado é importante, mas precisa ser interpretado corretamente.

O experimento utilizou azevém perene e trevo-branco, animais e condições específicas. Não significa que qualquer pastagem, em qualquer região, produzirá leite com mais caseína ou maior rendimento industrial que um sistema confinado.

O estudo demonstra outra coisa: o sistema alimentar pode alterar características do leite que interessam diretamente à fabricação de queijo.

Isso abre uma discussão muito mais útil do que simplesmente comparar “pasto versus confinamento”.

Não basta existir pasto: a vaca precisa conseguir colhê-lo

Uma área visualmente cheia de forragem não garante alto consumo.

Um experimento realizado no Uruguai comparou duas estratégias de manejo com a mesma espécie forrageira (Dactylis glomerata). A diferença entre elas estava no objetivo do pastejo e no tipo de estrutura oferecida às vacas.

Na primeira estratégia, o objetivo era maximizar a colheita de forragem por animal. O pasto foi manejado com período de descanso mais curto, de 16 dias, criando condições mais favoráveis ao comportamento de pastejo e ao consumo.

Nesse manejo, a forragem consumida apresentou 20% mais proteína bruta e 10% menos fibra em detergente ácido (FDA) em relação à outra estratégia. As vacas consumiram, em média, 16,3 kg de matéria seca de pasto por dia e produziram 23,9 litros/vaca/dia, sem suplementação concentrada.

Como os dois manejos se diferenciaram na prática?

Na segunda estratégia, o objetivo era maximizar a colheita instantânea de forragem. O período de descanso foi maior, de 38 dias. Na avaliação, a forragem apresentou menor teor de proteína bruta e maior FDA, além de uma estrutura menos favorável à ingestão.

Como resultado, o consumo caiu para 14 kg de matéria seca/vaca/dia e a produção média ficou em 19,3 litros/vaca/dia.

Na prática, a primeira estratégia priorizou quanto cada vaca conseguia colher e consumir. A segunda priorizou uma maior colheita instantânea do pasto, mas com menor ingestão e desempenho individual. Portanto, não se tratava apenas de ter mais ou menos forragem disponível, e sim de oferecer uma estrutura que facilitasse a colheita pelo animal.

Além disso, o estudo não encontrou diferença significativa na composição percentual do leite entre os manejos. Entretanto, como a estratégia de maior ingestão produziu mais leite, ela também resultou em maior produção total de gordura, proteína e lactose. Assim, os dados não indicam vantagem da segunda estratégia para a produção de queijo; dentro das condições avaliadas, o desempenho produtivo favoreceu o manejo voltado à maior ingestão.

Por fim, há outra ressalva importante: o experimento foi realizado com uma gramínea temperada, no Uruguai. Por isso, os números não devem ser transferidos diretamente para uma pastagem tropical brasileira. O princípio que permanece é que a estrutura e o valor nutritivo do pasto influenciam quanto a vaca consegue consumir e produzir.

Então é melhor investir no pasto ou aumentar a ração?

Essa é provavelmente a pergunta errada.

Em sistemas a pasto, o concentrado pode ter papel importante para animais de maior potencial produtivo. Mas aumentar ração sem considerar quanto o animal consegue obter da forragem pode reduzir a eficiência do sistema.

Isso acontece, entre outros motivos, pelo chamado efeito substitutivo: conforme cresce a suplementação, a vaca pode reduzir o consumo de pasto. Dessa forma, parte do alimento concentrado passa a substituir uma forragem que poderia estar sendo consumida, em vez de apenas complementar a dieta.

Por isso, a quantidade de concentrado não deveria partir apenas de uma proporção fixa. Ela depende do potencial produtivo da vaca, estágio de lactação, quantidade e qualidade da forragem disponível e, evidentemente, da resposta econômica esperada.

A lógica é extrair o potencial da base forrageira e utilizar a suplementação onde ela realmente agrega resultado.

Leite a pasto pode render mais queijo: quantidade sozinha não resolve

É aqui que a discussão volta diretamente ao manejo da pastagem.

Para uma vaca leiteira obter nutrientes suficientes da forragem, importa não apenas quantos quilos de matéria seca o hectare produz, mas quanto dessa produção o animal consegue colher e aproveitar.

Isso envolve fatores como:

  • disponibilidade de folhas;
  • relação folha/colmo;
  • digestibilidade;
  • qualidade nutricional;
  • estrutura do dossel;
  • altura de entrada e saída;
  • velocidade de rebrota;
  • oferta de forragem por animal.

Em outras palavras, produzir muita biomassa que limita ingestão ou seleção não é o mesmo que oferecer uma base forrageira eficiente para vacas leiteiras.

A Papalotla já abordou de forma mais ampla a relação entre sistema alimentar e composição do leite em Leite a pasto: por que a qualidade nutricional supera o confinamento. Neste caso, o ponto é mais específico: entender como essa composição pode chegar até o rendimento industrial do leite.

Onde os híbridos Papalotla entram nessa discussão?

Nossos próprios dados ajudam a mostrar por que a base forrageira merece atenção, mas é importante não extrapolar o que eles comprovam.

Em uma avaliação com Camello® e Tifton 85, o Camello® apresentou produção média de leite por vaca 12% maior e produção total de 10.811 litros/ha, contra 3.616 litros/ha do Tifton, durante o período acompanhado.

Em outra avaliação de campo, realizada com Cayman® e Zuri, o Cayman® apresentou 36,2 litros/ha/dia, contra 25,6 litros/ha/dia do Zuri, além de maior capacidade de suporte nas condições do acompanhamento.

Os dados demonstram a importância que a escolha e o manejo da base forrageira podem ter sobre consumo, desempenho animal e produtividade da área, etapas anteriores à composição do leite que chegará à indústria.

Por que leite a pasto rende mais queijo?

Em determinadas condições, o leite a pasto pode render mais queijo, mas esse resultado não acontece apenas porque a vaca pasteja. Ele depende da interação entre forrageira, manejo, ingestão, dieta completa, genética, saúde animal e processo industrial.

Há evidências de que sistemas a pasto, em determinadas condições, podem produzir leite com maiores teores de proteína e caseína e melhor capacidade de rendimento para determinados queijos. Mas o resultado depende da interação entre forrageira, manejo, ingestão, dieta completa, genética, estágio de lactação, saúde animal e processo industrial.

Para o produtor, isso deixa uma reflexão importante.

Quando o destino do leite inclui queijo e outros derivados, talvez seja insuficiente avaliar a propriedade apenas por litros/vaca/dia. Também vale acompanhar o que existe dentro desses litros.

Porque, no final, dois tanques com o mesmo volume podem entregar matérias-primas diferentes para a indústria.

Continue acompanhando o blog da Papalotla para mais conteúdos sobre produção de leite a pasto, qualidade de forragem e manejo voltado ao desempenho animal.

ilustração pasto verde

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